Quem nunca ouviu falar de Caixas? Que cidade do Brasil não tem uma praça... uma rua com o nome Duque de Caxias? E no entanto, o que sabemos desse homem? Quem foi esse vulto tanto inspira a nossa história? Hoje, 25 de agosto, há exatos 212 anos, nascia Luís Alves de Lima e Silva, filho de uma estirpe que produzira 11 generais, em três gerações. Gostaria de aproveitar a oportunidade para contar algumas curiosidades, alguns “causos” da vida desse Brasileiro Maiúsculo por quem, creio eu, o Exército cometeu uma apropriação indébita ao consagrá-lo seu Patrono, uma vez que ele foi muito maior do que a Instituição a que pertenceu e pela qual combateu boa parte dos seu 77 anos de vida.

 

 


CAXIAS

O HOMEM E A OBRA

Quem nunca ouviu falar de Caixas? Que cidade do Brasil não tem uma praça... uma rua com o nome Duque de Caxias? E no entanto, o que sabemos desse homem? Quem foi esse vulto tanto inspira a nossa história?

Hoje, 25 de agosto, há exatos 212 anos, nascia Luís Alves de Lima e Silva, filho de uma estirpe que produzira 11 generais, em três gerações. Gostaria de aproveitar a oportunidade para contar algumas curiosidades, alguns “causos” da vida desse Brasileiro Maiúsculo por quem, creio eu, o Exército cometeu uma apropriação indébita ao consagrá-lo seu Patrono, uma vez que ele foi muito maior do que a Instituição a que pertenceu e pela qual combateu boa parte dos seu 77 anos de vida.

 

AS ORIGENS

Caxias era filho varão mais velho do Brigadeiro Francisco de Lima e Silva, ilustre oficial de Infantaria e futuro regente do Império, no Período Regencial, e de Mariana Cândida de Lima. Teve nove irmãos. Nasceu na Fazenda São Paulo, no Rio de Janeiro, onde hoje se acha o município de Duque de Caxias. Ingressou na carreira militar, precocemente, aos 5 anos, valendo-se de um alvará de 1757, que permitia a matrícula, como cadete, dos filhos de militares conceituados. Sentou praça, então, no regimento de infantaria comandado por seu avô paterno, o Cel José Joaquim de Lima e Silva. Nessa condição, concluiu seus estudos preparatórios no Seminário de São Bento (hoje, Colégio Pedro II), ingressando na Academia Real Militar em 1818. Após 3 anos, em 1821, deixa a Academia como tenente, sendo designado para o 1º Batalhão de Fuzileiros, no Rio de Janeiro.

 

PORTA BANDEIRA DO BATALHÃO DO IMPERADOR

Em 1822, após a Independência, D. Pedro I resolveu formar uma Unidade militar de elite, para a sua guarda pessoal, o Batalhão do Imperador, hoje Batalhão da Guarda Presidencial. Reuniu as tropas no campo de Santana e passou em revista aos homens que formariam a unidade. Nessa ocasião, o próprio Imperador escolheu o Tenente Luís Alves para Porta-Bandeira do Batalhão e passou-lhe às mãos a Bandeira do Império recém-criada.

 

O BATISMO DE FOGO

No mesmo ano, partia Caixas para a Bahia, para viver seu batismo de fogo contra as tropas do Gen Madeira de Mello. Era a Guerra da Independência. Seu primeiro comandante foi o Cel José Joaquim de Lima e Silva, seu avô, futuro Visconde de Magé.  Três combates sucessivos – 28 de março, 3 de maio e 3 de junho – projetavam a bravura que o iria acompanhar durante toda a sua vida de soldado. Desse momento, a seguinte citação pessoal pode ser lida em seus assentamentos:“nos dias de fogo, comparecia nos lugares de maior perigo, mostrando sua exemplar bravura”.

Vencida a Guerra da Independência, de volta ao Rio, sendo agraciado com a Ordem Imperial do Cruzeiro e promovido ao posto de capitão, em 1824.

Já no ano seguinte segue para o Sul do País onde iria lutar na Guerra da Independência do Uruguai. Nessa guerra, realizou típicas “ações de comandos” ao infiltrar-se, com alguns de seus homens, à retaguarda dos uruguaios e destruir um barco pirata que estava causando muitas baixas às nossas tropas. Missão cumprida. Nenhum homem perdido. Este feito lhe valeu a Ordem de São Bento de Aviz.  O título de “veterano da Guerra da Independência” foi o que mais prezou durante toda a sua vida.

Terminada a guerra, em 1828, foi promovido a major. Com apenas 7 anos de serviço, já era um soldado experiente.

tenente-coronel, seria promovido a 12 de setembro de 1837.  Seria Coronel em 2 de dezembro de 1839.

 

 

A ABDICAÇÃO DE D. PEDRO I

Quando D. Pedro I abdicou, em 1831, o Major Luís Alves era o Subcomandante do Batalhão do Imperador. Diante das tropas rebeladas, reunidas no Campo de Santana, D. Pedro o chama e pergunta: “o que acha, major? Quais as nossas chances?”. Estavam em minoria, ele bem sabia. Ainda assim, deu ao Imperador o seguinte conselho: “Se vossa Majestade quiser debelar o movimento, nada será mais fácil. Basta assinar um decreto concedendo baixa a todos os soldados de primeira linha que quiserem dar baixa e, dentro de 24 horas, os oficiais estarão sós à frente de seus regimentos”. Naquele tempo, o serviço militar era de 9 anos e muito penoso.

Mas Imperador já tomara sua decisão. Adbicaria. Então liberou Luís Alves de seu compromisso de lealdade. Só então, o major prestou-lhe uma continência e foi juntar-se aos revoltosos, cujo líder, era seu próprio pai. Em nome da Lei, era contra ele que iria lutar. 

 

O PACIFICADOR

Entre a Abdicação de D. Pedro I, em 1831 e a maioridade de D. Pedro II, em 1840, o Império Brasileiro viveu uma vacância de poder que deu origem a uma série de sedições e levantes nos mais diversos locais do País, pelos mais diferentes motivos, mas que, no fundo, tinham uma só razão: a disputa de poder entre os chefes locais. Assim, a Balaiada (no Maranhão), a Cabanagem (no Pará), a Sabinada  (na Bahia), a Revolta Sorocabana (São Paulo), a Sedição de Barbacena (Minas Gerais) e a Revolução Farroupilha foram exemplos de conflitos que teriam levado o Brasil e explodir em uma série republiquetas, como aconteceu com a América Hispânica, não fosse a ação firme e diligente de Caxias.

A Balaiada

No Maranhão, de 1838 a 1841, a Balaiada foi a mais cruenta dessas revoltas. O Cel Luís Alves foi enviado pela Regência, à frente das tropas Imperiais para por fim à revolta. Seu apoio naval era comandado pelo Capitão-Tenente Joaquim Marques Lisboa, futuro Marquês de Tamandaré e Patrono da Marinha do Brasil. Ao chegar, assumiu o Governo e o Comando das Armas da Província. Começou a ser assediado pelos dois grupos locais – os Liberais ou “Bem-ti-vis” e os Conservadores – cada um querendo envolvê-lo nas entranhas de seus fúteis argumentos, para desfrutar de seu apoio. Sua primeira ação foi discursar na Assembléia local e dar um recado a todos.  Assim terminam suas palavras:

“Maranhenses! Mais militar do que político, eu quero até ignorar o nome dos partidos que, por desgraça, entre vós existam”.

Deveis conhecer a necessidade e as vantagens da paz, condição da riqueza e da prosperidade dos povos...”

Estava claro: ele tinha uma missão e ela seria cumprida! E ao cabo de menos de três anos a província estava pacificada. Seu método de trabalho é muito bem descrito pelo historiador Paulo Matos Peixoto:

“Como sempre iria agir em sua vida, a ação conciliadora precederia a militar. Primeiro, organizaria e restabeleceria a dignidade dos órgãos e funções, saldaria as dívidas, pagaria soldos, expurgaria a tropa, restauraria o comércio, garantiria a tranqüilidade pública.”

Como agradecimento, recebeu de uma das cidades que libertou o título de Barão de Caixas, iniciando a sua trajetória nobiliárquica. 

Por quê Caxias? "Caxias simbolizava a revolução subjugada. Essa princesa do Itapicuru havia sido mais que outra algema afligida dos horrores de uma guerra de bandidos; tomada e retomada pelas forças imperiais, e dos rebeldes várias vezes, foi quase ali que a insurreição começou, ali que se encarniçou tremenda; ali que o Coronel Luis Alves de Lima e Silva entrou, expedindo a última intimação aos sediciosos para que depusessem as armas; ali que libertou a Província da horda de assassinos. O título de Caxias significava portanto: disciplina, administração, vitória, justiça, igualdade e glória".

Em 14 de julho de 1841 foi promovido ao posto de Brigadeiro (equivalente a General-de-Brigada, hoje).

A Revolta Sorocabana

De volta Rio, o Barão fora imediatamente designado para por fim a mais um levante. Da Revolta Sorocabana, uma curiosidade: seu líder revoltoso era o Padre Diogo Antônio Feijó, ex-regente do Império, o mesmo que enviou Caxias ao Maranhão, pacificar os balaios. Ao saber que Caxias viria ao seu encalço, Feijó tenta envolvê-lo e conquistá-lo para o lado dos revoltosos, enviando-lhe uma carta que se inicia assim:

“Quem diria que, em qualquer tempo, o Senhor Luís Alves de Lima e Silva seria obrigado a combater o Padre Feijó?”

E prosseguia: “então, general: ontem do lado do povo, hoje, contra ele?!”

A resposta de Caixas pode ser resumida na seguinte frase, que denota bem o seu caráter legalista: “Não, Execlência: ontem pela Lei; hoje pela Lei.“

Venceu, mais um vez. Desta, quase não combateu. Impôs-se pela presença. Quanto ao derrotado padre, nomeou um de seus oficiais como ajudante-de-ordens. Não deixou que o prendessem. Já estava velho. Viveu em sua casa até a morte. O General era cristão, humano e piedoso e jamais humilhou os vencidos.

 

 

A Sedição de Barbacena

Nem bem retornou à Corte, já foi enviado a Minas Gerais. A cidade de Barbacena se revoltava. Nessa empreitada, demonstrou, nos combates de Santa Luzia, o seu gênio militar. Ali, ao ver-se diante de um inimigo bem aferrado ao terreno, simulou uma retirada, atraindo a tropa revoltosa que passou a persegui-lo. Nesse momento, seu irmão, o Cel José Joaquim de Lima e Silva, futuro Visconde de Tocantins, comandante de uma de suas colunas atacou pelo flanco e garantiu a vitória.

Organizou a província e devolveu-a ao seu governador. Mais uma revolta pacificada. Voltou à Corte de forma apoteótica, sendo saudado euforicamente por todos os lugares por onde passava.

A 29 de agosto de 1842, contando com menos de 40 anos de idade, foi promovido a Marechal de Campo, posto equivalente a general-de-divisão, nos dias de hoje.

A Farroupilha

Em outubro de 1842, o Império confiou-lhe mais uma missão: dar cabo da Guerra dos Farrapos, que assolava o Sul do País desde 1835.  Como sempre, assumiu o Governo da Província e o Comando das Armas; reorganizou as finanças e o comércio, o Exército; acertou a logística; trouxe cavalos de fora para a remonta da sua Cavalaria e propôs um acordo aos revoltosos. Como sempre, buscava, inicialmente, o diálogo e guardava a espada para o argumento final. Segue, abaixo, o discurso de Caxias, incitando os rebeldes à rendição e mostrando que todos eram irmãos, que o inimigo eram os que incitavam a revolta (referia-se, ele a Uribe, chefe Uruguaio, e Rosas, Presidente da Argentina):

"Lembrai-vos que a poucos passos de vós está o inimigo de todos nós - o inimigo de nossa raça e de tradição. Não pode tardar que nos meçamos com os soldados de Oribe e Rosas; guardemos para então as nossas espadas e o nosso sangue. Abracemo-nos para marcharmos, não peito a peito, mas ombro a ombro, em defesa da Pátria, que é a nossa mãe comum"

Diante da recusa, partiu para o combate. Em menos de três anos, a província estava totalmente pacificada.

Apesar de vencedor, não humilhou os vencidos; jamais o faria. Todos eram brasileiros! Venceu indubitavelmente os farrapos, mas aceitou todas as condições que eles propuseram para a paz, entre as quais a de que o Império assumiria a dívida de guerra dos Farrapos e que todos os militares farroupilhas voluntários seriam incorporados ao Exército Imperial com os mesmos postos que lutaram.

Ao vencer a batalha final da Guerra dos Farrapos, na Serra dos Porongos, dois episódios bem refletem  a magnanimidade do caráter do general: o primeiro: conta-se que proibiu qualquer comemoração festiva pela vitória e, respondendo à pergunta do capelão militar sobre o Te Deum pelo êxito daquele trágico combate, respondeu:

“Não considero as desgraças de meus concidadãos como troféus de vitória. Combato rebeldes, mas sinto seus dramas. Ao invés de um ato volitivo, será preferível uma missa fúnebre pelas almas dos que ficaram nos campos para sempre. Irei á missa e levarei meu estado-maior e todos os oficiais e soldados que a igreja comportar”

O segundo: chegou ao seu conhecimento que um oficial de seu estado-maior, em infeliz ironia, mandara felicitações pela vitória dos Porongos à família de um rebelde que fora morto em combate. Sem perda de tempo, desligou-o do serviço e mandou chamá-lo à sua presença e dirigiu-se com ele à casa da família insultada a fim de pedir desculpas pela atitude leviana de seu oficial. 

E em 1º de março de 1845 é assinada a paz de Ponche Verde, dando fim à revolta Farroupilha. Estava concluída assim, sua tarefa pacificadora.

 

O POLÍTICO

O que muita gente desconhece, é que Caxias também militou na política, o que era comum aos homens de grande estirpe, àquela época. Dois grandes partidos se revezaram no poder durante o Império: Liberal e Conservador. Caxias era conservador.

Em agosto de 1840, mercê de seus magníficos feitos em pleno campo de batalha, Caxias foi nomeado Vereador de Suas Altezas Imperiais. Foi Governador das províncias que pacificou (Maranhão, São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul), no período em que lá esteve, realizando, em todos elas, apesar da situação de crise sob a qual governou, notável administração. Foi Deputado pelo Maranhão, eleito por unanimidade pela Assembléia da Província, em 1841. Foi Senador pelo Rio Grande do Sul, oportunidade em que pôde dar prosseguimento, na Corte, à obra de pacificação que deixara na Província. Foi Ministro da Guerra. Foi, por três vezes, Presidente do Conselho de Ministros (Primeiro Ministro – o cargo máximo da política à época, visto que o Imperador era o chefe de estado vitalício).

Na última vez em que foi nomeado “Primeiro Ministro”, estava de cama, em sua casa, acometido de grave moléstia. D. Pedro II era um monarca muito conhecido e popular no exterior. Havia programado uma viagem de dois anos, através do mundo. Não poderia deixar o frágil Império sob as ordens de qualquer um.

O Imperador foi visitar-lhe em casa e o nomeou. Caxias recusou o cargo; estava doente. O Imperador não aceitou sua recusa. Quantos, àquela época, não dariam a vida pelo cargo que estava recusando..? E assim o foi: o Imperador ausentou-se por quase dois anos e Caxias deu marcha, sem percalços, à administração do Império. 

Sua conduta é um grande exemplo de ética na política. Por muito tempo, teve seu pai, um Liberal, por oponente. Sua primeira atitude, ao entrar na Assembléia, era tomar-lhe a bênção. Muitas vezes, retirou-se do plenário para não votar contra ele, o que demonstra o respeito que tinha pelo pai e, enfim, pela família.

 

 

O HOMEM

Ao longo deste depoimento, muito já se deduz de Caixas, o homem. Mas algumas outras facetas de sua história,  sua forte personalidade e seu firme caráter precisam ser ressaltadas.

Caxias casou-se, em 6 de janeiro de 1833, com Ana Luísa Carneiro Leão – a “Anica” – ,  na época, com apenas 16 anos. Anica era filha do Desembargador Paulo Fernandes Viana.

Certa vez, incomodada com a profissão do marido, que o expunha a riscos, seu amor e seu legítimo egoísmo de esposa quase traiu o ilibado comportamento que teria durante toda a sua vida: pedira a Caxias que renunciasse á vida militar, em prol da tranquilidade do lar. Ponderava ela: “valeriam todas as honras e glórias às alegrias e a paz do lar?” Quantos de nós, ainda hoje, se vê diante dessa situação? O Major meditou em silêncio. Estava diante de uma situação insólita.  Renunciar à vocação..?

Mas tinha o dom de tomar decisões rápidas. Trancara-se em seu gabinete, em sua casa, e redigira um ofício em que pedia demissão do Exército. Estava provado o seu amor e a prioridade que sempre daria à família. Mas Anica percebeu o tamanho do sacrifício que estava impondo ao esposo e pediu-lhe que destruísse o papel. Daí em diante, nenhuma queixa jamais externou.

Caxias era homem do lar, dedicado à esposa e aos filhos, como demonstra a carta que escreve à esposa, no meio da campanha no Maranhão:

"Meu bem! Esta foi escrita as 11 horas da noite em uma barraca de palha em que eu estou morando (...) Tal é o cuidado que me dás e o amor que te tenho que cheio de trabalhos não me esqueço de ti. Dá um beijo nos meus anjinhos e saudades a todos de casa. Sou só teu. Luis."

Caxias teve, com Ana Luísa, três filhos: o mais velho, Luís Alves, morreu aos quinze anos, enchendo de luto a vida do pai, que jamais foi o mesmo; Ana do Loreto Viana de Lima – Viscondessa de Ururaí – e Luísa do Loreto Viana de Lima – Baronesa de Santa Mônica – são as outras duas filhas. 

Conta-se que Pedro Américo pintou Caxias na batalha de Avaí com a túnica desabotoada. E quando Caxias foi visitar a obra em companhia do Imperador, visivelmente contrariado, teria falado a D. Pedro II: "Gostaria de saber onde o pintor me viu de farda desadotoada... nem no meu quarto". Dizem que Pedro Américo procurou ali representar Caxias com o fígado inchado, em consequência de moléstia hepática crônica adquirida no Maranhão, mal que viera a se manifestar agudo no Paraguai.

Oliveira Vianna, um de seus biógrafos assim se expressou sobre sua personalidade em artigo intitulado “O Temperamento de Caxias”:

“Possuidor de inteligência realista de homem de ação. Tudo nele era lucidez, precisão, justeza, objetividade e imaginação concreta e realista. Refratário a sonhos, fantasias e a planejar sobre irrealidades. Considerava as coisas como as coisas eram. Suas atividades de estadista o levariam a ter sucesso em qualquer atividade que viesse a se dedicar.

Não lhe faltava coragem física, até lhe sobrava, mas que a usava, calculadamente no momento exato, como aconteceu em Itororó...

Tendo tudo nas mãos e podendo ser tudo foi o mais humilde dos heróis e o mais obediente dos cidadãos.”

De fato, teve sempre o Duque a simplicidade na magnitude.

 

 

O NOBRE

Caxias fez notável carreira nobiliárquica. Galgou todos os graus da nobreza (Barão, Visconde, Conde, Marquês e Duque), sendo o único Duque que o Império produziu em quase 70 anos de monarquia. O Ducado é o máximo grau de nobreza que um homem, sem sangue real, poderá ascender. Acima dele, só os monarcas (os príncipes e imperadores).

 

 

O GRANDE GENERAL

Caxias participou de duas grandes e importantes campanhas externas: a Guerra Contra Oribe e Rosas (1851 a 1852) e a Guerra do Paraguai (1864 a 1870). Em ambas, iria mostrar ainda mais o seu gênio militar, sentimento do dever e amor à causa do Brasil.

 

A Guerra contra Oribe e Rosas (1851-52).

A maioria das nações americanas conquistou  independência no início do século XIX e procurou, durante boa parte daquele século, consolidar sua frágil situação política. Em meados do século XIX, a situação na Bacia do Prata não era das mais calmas. Os interesses dos países circunvizinhos eram conflitantes. Uruguai e Argentina incentivavam invasões e saques nas estâncias gaúchas e provocavam enormes prejuízos à economia do Brasil. O Império protestou. Sem sentir as adequadas providências dos vizinhos, pôs-se em campanha militar contra eles.

Mais uma vez, Caxias é nomeado Presidente da Província do Rio Grande do Sul e Comandante da tropa que seria enviada ao Uruguai e à Argentina. Sua fama já corria o mundo. Essa campanha foi vencida, praticamente, sem combates. A sombra do Exército de Imperial em marcha, com 16.000 homens, comandado pelo mais prestigiado general da América do Sul causava a inquietação, o recuo e a deserção do inimigo. No Uruguai, os poucos combates havidos foram pelejas da vanguarda da tropa. As tropas brasileiras desfilaram vitoriosas em Montevidéu e Buenos Aires.

Foi promovido ao posto de Tenente-General (general-de-exército) em 1852. Essa vitória lhe valeu, também o título de Marquês.

Seria efetivado Marechal-de-Exército em 1863, atingindo o ápice da carreira militar, aos 60 anos de idade.

 

A Guerra da Tríplice Aliança (1864 a 1870).

Em 1864, o Paraguai resolve dar vazão ao seu sonho expansionista.  Solano López sonha incorporar uma região do Rio Grande do Sul, da Argentina e do Uruguai e formar o “Paraguai Maior”, com uma saída para o mar. Então, invade o Brasil e o Uruguai e apreende o navio brasileiro Marquês de Olinda para demonstrar que a navegação no Prata estava sob seu controle. Inicia-se a Guerra da Tríplice Aliança, reunindo Brasil, Argentina e Uruguai contra as forças paraguaias de Solano Lopez.

Por uma manobra do Partido Liberal, que estava no poder à época, o comando dos aliados foi dado a Bartolomeu Mitre, um argentino. Ressalte-se que o Brasil contribuiu com cerca de 60.000 homens e a Argentina, com cerca de 15.000. O nome natural para a campanha seria Caxias, um conservador, e os liberais, abandonando as razões de estado em prol das querelas políticas, não poderiam aceitar.

Iniciou-se a guerra. Os aliados conseguiram avançar e, após a Batalha de Tuiuty, em 24 de maio de 1864, o Exército Paraguaio perdeu sua capacidade ofensiva. No entanto, a única via para Assunção era o Rio Paraguai, fortemente defendida pelas fortalezas de López. A guerra estagnou. Doenças, indisciplina, problemas foi a consequência. Diante do impasse, o Ministro Zacarias de Góes, um liberal, viu-se obrigado a fazer o convite a Caxias para que assumisse o comando. Sua resposta foi pronta: “Aceito o convite, Conselheiro. Minha espada não tem política”.  

Em 1866, Caxias é nomeado Comandante-chefe das Forças em operações, substituindo a Mitre. Como sempre, reorganiza a tropa, regulariza a logística, impõe a disciplina, enfim, prepara a tudo para agir. Comprovando o seu elevado descortínio de chefe militar, utiliza, pela primeira vez no continente americano, a aeroestação (balão) para fazer a vigilância e obter informações sobre o inimigo e a área de operações. O tino militar de Caxias atinge seu ápice nas batalhas dessa campanha. Sua determinação ao Marechal Argolo para que fosse construída a famosa estrada do Chaco, permitindo que as forças brasileiras executassem a célebre marcha de flanco através do chaco paraguaio, algo considerado impossível,  imortalizou seu nome na literatura militar.

Em Itororó, sua magnífica liderança é posta à prova. Após desbordar o inimigo pela estrada do chaco e atacá-lo pela retaguarda na célebre sequência de batalhas que ficou conhecida como “dezembrada”, foi detido no Arroio Itororó – um pequeno arroio, ladeado por um chaco, sendo muito favorável ao defensor. Estudou a situação e resolveu por uma manobra de flanco, buscando, novamente, a surpresa. Mandou então a cavalaria do General Osório desbordar e atacar o flanco. O guia, porém, escolheu um caminho mais demorado e, na hora do embate, Caxias estava só. Diante do impasse, aos 66 anos de idade, montou no seu cavalo, e bradou  - "Sigam-me os que forem brasileiros", galopando rumo à ponte de Itororó. Esse ato de bravura garantiu a vitória. O General Dionízio Cerqueira, na época, soldado que participou daquela luta, em suas “Reminiscências da Guerra do Paraguai”  narra que viu homens que estavam caídos no chão, moribundos, diante da atitude heróica do Marechal, levantarem-se e andarem alguns passos para caírem mortos adiante, tamanha a empolgação que provocou na tropa o gesto de bravura de Caxias. 

Ao entrar vitorioso em Assunção, Caxias deu por finda sua missão. Estava doente.  Recusa-se a participar da perseguição a López e retorna ao Brasil, encerrando 26 meses de campanha. Esta seria sua última campanha. E sua espada jamais conheceria a derrota. 

No dia 15 de fevereiro de 1869, a bordo do navio São José, chega ao Rio de Janeiro. O  cais deveria estar lotado. O povo deveria estar ali para louvar o vencedor da guerra. Mas o local estava deserto. Nenhum enviado do governo fora recebê-lo. Ninguém ali... Caxias tomou um tílburi (táxi) para ir até sua casa na Tijuca. O que aconteceu? Seus inimigos políticos não informaram à população da sua chegada. Amargo regresso...

O Marquês isola-se e afasta-se da vida pública. Doente, convalesce em seu sítio na Tijuca. Só os amigos mais íntimos iriam visitá-lo. Do Imperador, nem a gratidão.  Mas ainda viveria 11 anos. Ainda exerceria, mais uma vez a Presidência do Conselho de Ministros.

OS ÚLTIMOS MOMENTOS

No dia 7 de maio de 1880, às 20 horas e 30 minutos, Caxias fechava os olhos para sempre. No dia seguinte, chegava, em trem especial, na Estação do Campo de Sant'Ana, o seu corpo, vestido com o seu mais modesto uniforme de Marechal-de-Exército, trazendo ao peito apenas duas das suas numerosas condecorações, as únicas de bronze: a do Mérito Militar e a Geral da Campanha do Paraguai, tudo consoante suas derradeiras vontades expressas. Outros desejos testamentários foram respeitados: enterro sem pompa; dispensa de honras militares; o féretro conduzido por seis soldados da guarnição da Corte, dos mais antigos e de bom comportamento, aos quais deveria ser dada a quantia de trinta cruzeiros (cujos nomes foram imortalizados em pedestal de seu busto em passadiço do Conjunto Principal antigo da Academia Militar das Agulhas Negras); o enterro custeado pela Irmandade da Cruz dos Militares; seu corpo não embalsamado. Quantas vezes o caixão foi transportado, suas alças foram seguras por seis praças de pré do 1º e do 10º Batalhão de Infantaria. No ato do enterro, o grande literato Visconde de Taunay, então Major do Exército, proferiu alocução assim concluída: "Carregaram o seu féretro seis soldados rasos; mas, senhores, esses soldados que circundam a gloriosa cova e a voz que se levanta para falar em nome deles, são o corpo e o espírito de todo o Exército Brasileiro. Representam o preito derradeiro de um reconhecimento inextinguível que nós militares, de norte a sul deste vasto Império, vimos render ao nosso velho Marechal, que nos guiou como General, como protetor, quase como pai durante 40 anos; soldados e orador, humildes todos em sua esfera, muito pequenos pela valia própria, mas grandes pela elevada homenagem e pela sinceridade da dor".

 

O PATRONO

Em 1923, uma iniciativa da Escola Militar do Realengo, reúne os cadetes e manda celebrar uma missa em sufrágio da alma de Caxias, na Igreja de Santa Cruz dos Militares, no dia 25 de agosto. Este ato foi sendo repetido anualmente até que, em 1962, em decreto do Primeiro Ministro Tancredo Neves, Caxias foi oficialmente declarado o Patrono do Exército Brasileiro e a data de seu nascimento foi instituída como o Dia do Soldado.

Em 1932, o então Coronel José Pessoa, Comandante da Escola instituiu o espadim do cadete, que é uma réplica da espada de Caxias e simboliza a honra militar.

Os restos mortais do Duque e de sua esposa repousam no Panteon de Caixas, um monumento erigido em sua homenagem, à frente do Palácio Duque de Caxias, sede do Comando militar do Leste,  no Rio de Janeiro.

 

Amigos, é de se supor que a literatura fantasie a realidade. Logicamente, o homem Luís Alves tinha defeitos como todos temos. Mas é indiscutível que ele foi a maior figura do Brasil-Império. É igualmente indiscutível sua importância no cenário político e militar do País. Exemplo de homem, de soldado, de cidadão, de pai de família, de líder político. Sua maioridade se dá na Independência. Durante toda a sua vida, combateu e defendeu o Brasil. Após sua morte, o Império declinou e desapareceu. Conforme foi exposto no início, Caxias é muito maior que o Exército e merece todo o reconhecimento da Nação. Como bem disse Gilberto Frere: “Caxiismo não é um conjunto de virtudes apenas militares, mas de virtudes cívicas e militares, comuns a militares e civis... deveria ser aprendido tanto nas escolas civis como nas militares. É o Brasil inteiro que precisa dele”

Parabéns, Marechal, pela memória dos seus 212 anos. 

Newton Raulino de Souza Filho
Soldado do Exército de Caxias

 

 


 

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