O articulista é Oficial da Reserva da Arma de Cavalaria (mesma do Interventor), amigo pessoal deste Editor, esteve por duas vezes no Haiti durante a MINUSTAH e comandou por mais de três anos, o Centro de Preparação de Oficiais da Reserva do Rio de Janeiro. Hoje é filiado ao Partido NOVO.

Nota do Editor

 

 



O interventor federal na segurança pública do Rio de Janeiro é um Oficial General de 4 estrelas, oriundo da Arma de Cavalaria. E daí? O que isso significa?

O Gen Braga Netto traz em seu DNA profissional uma característica inerente aos militares da “arma ligeira que transpõe os montes”: a refinada visão prospectiva. Todo oficial dessa Arma é treinado, desde muito jovem, a analisar as missões recebidas sob a perspectiva da intenção da autoridade outorgante, em outras palavras: “com que finalidade (imediata e futura) essa missão me foi atribuída?”

Um segundo aspecto invulgar, que a escolha de um General com 40 anos de vida militar indica, é sua capacidade ampliada de análise do “inimigo”. Um oficial mais jovem, talvez fosse atraído exclusivamente pela parte mais visível da violência e desordem pública: o crime organizado conectado ao narcotráfico. Esse é, de fato, um inimigo da segurança pública bastante importante. Ainda que de chinelo, bermuda e boné, seus soldados são assassinos violentos, integrando facções em disputa, e portando (ao arrepio da lei) armamentos de elevado poder de fogo. Esse inimigo obviamente será alvo de sua análise da missão.

Entretanto, a elevada experiência do interventor escolhido, permite sua visão de outras forças oponentes (não tão óbvias) que, usualmente trajadas de terno e gravata, conduziram o Estado do Rio de Janeiro (e outros entes da Federação) ao momento de crise que vivemos. Estou seguro de que não escapou ao velho militar a observação da coincidente sigla partidária entre o Presidente da República e os gestores criminosos (presos e ainda soltos) à frente do Estado do Rio por mais de 20 anos.

Hoje, domingo, seu Estado-Maior está reunido no CML (Comando Militar do Leste) ultimando planos que serão divulgados nos próximos dias. Não conhecemos os detalhes, mas é possível inferir que, ao menos, a sensação de segurança experimentada durante os Jogos Olímpicos será buscada.

Mais fácil que elencar o que a sociedade carioca e fluminense pode esperar dessa intervenção, é mencionar o que, certamente, não será entregue ao povo do Rio de Janeiro, em apenas 10 meses de trabalho:
- O interventor não conceberá (nem implementará, por evidente inexistência) uma política estadual de segurança pública. Não possui os meios institucionais para tamanha empreitada, que abarca diversas ações estruturantes das áreas que permaneceram, pelo decreto costurado, com o Governador Pezão. O General Braga Netto sabe perfeitamente que a Segurança Pública transcende a ação das polícias, corpo de bombeiros e agentes penitenciários.

- Não reverterá, tampouco, a perversa realidade do sistema judicial, onde quem deveria estar preso por crimes hediondos, latrocínios e homicídios (inclusive de policiais) está em liberdade provisória, ou sequer foi denunciado pelo MP. As necessárias mudanças nos diplomas que sustentam esse sistema disfuncional (Código de Processo Penal e Lei de Execução Penal) não devem ser discutidas no Congresso Nacional em 2018, ano eleitoral.

- O Poder Judiciário, por sua vez, carece de outra reforma (após a última de 2004). O artigo 94 da Constituição Federal escancara uma janela à corrupção sistêmica instalada no País. O distorcido “Quinto Constitucional” coloca nas mãos do Governador do Estado a nomeação de Desembargadores sem qualquer experiência na magistratura. O uso político dessa ferramenta, por décadas, contaminou e comprometeu o funcionamento do Tribunal de Justiça do Rio (e de vários Estados), com sérias consequências ao funcionamento do Ministério Público Estadual.

Por essas, e muitas outras razões, ouso afirmar que uma das linhas de ação analisadas pelo General Braga Netto será da aplicação, contextualizada, de uma manobra militar muito conhecida: a Ação Retardadora. Nela, troca-se espaço por tempo, com um inimigo notadamente superior, conduzindo-o a uma posição favorável à defesa e futura retomada do ataque.
Traduzindo para os civis: conter a situação da violência urbana em um Estado administrativamente ( e criminosamente) falido, com mais de 800 pontos onde o poder público não tem ingerência, até a assunção do novo governador eleito do Estado do Rio de Janeiro, no início de 2019.

Retomo, portanto, a conclusão do meu último texto: 
“O salvador da pátria (ou do Rio) não é o General interventor, é o eleitor!”

 

 


 

Joomlashack