Casa da FEB, 02 fevereiro 2016

O Presidente, Conselheiros, Diretores, Sócios e Amigos da Casa da FEB, consternados, participam o falecimento em 02 fev 2016 do Veterano da FEB DALVARO JOSE DE OLIVEIRA, Herói que partiu para o Altar da Pátria, apresentando a família enlutada sentidos pêsames por esta perda irreparável e votos de que a sua alma se incorpore a corrente da Vida Eterna. A DIRETORIA - Associação Nacional dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira – ANVFEB


“Conspira contra sua própria grandeza, o povo que não cultiva seus feitos heróicos”

 

 



Resumo e transcrição de Depoimento do PRIMEIRO-TENENTE DALVARO JOSÉ DE OLIVEIRA, Nasceu na Cidade do Rio de Janeiro. Praça de Janeiro de 1937, oriundo do 1oGrupo de Artilharia de Dorso (1o GADO), quartel em Campinho – RJ.

Em junho de 1942 foi convocado como soldado, tendo sido promovido a cabo em dezembro de 1943, no 8o Grupo Móvel de Artilharia de Costa (8o GMAC).

Em 17 de agosto de 1942, quando viajava com destino a Pernambuco, para formar o 7o Grupo de Artilharia de Dorso (7º GADO) em Olinda, o navio mercante Itagiba, que o transportava, foi torpedeado, levando-o a passar pela difícil situação de náufrago.

Dentre as condecorações que lhe foram outorgadas, destacam-se as seguintes pela sua participação na Segunda Guerra Mundial:
Cruz de Combate 2a Classe; Medalha de Campanha; Medalha de Guerra e Medalha do V Exército americano.

Os torpedeamentos dos navios brasileiros Baependi,Araraquara, Aníbal Benévolo, Itagiba e Arará, no mês de agosto de 1942, em nosso litoral, na costa da Bahia, levaram o Brasil a declarar estado de beligerância à Alemanha em 22 de agosto de 1942.

Mais de 600 brasileiros perderam a vida nesses cinco naufrágios devido à ação criminosa do Eixo que, no biênio 1942-1943, afundou 31 navios da nossa Marinha Mercante.

Dalvaro se encontrava no Grupo de Artilharia que hoje é o Monte Bastione, em São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Com duas baterias, partiu com destino a Olinda, Pernambuco, para formar o 7o Grupo de Artilharia de Dorso, o atual 7º Grupo de Artilharia de Campanha.

O navio Itagiba, onde ele viajava, transportava uma bateria e o Baependi, a outra. Quando o Itagiba chegou à altura da Ilha de
Tinharé, onde se encontra o Farol de São Pedro-São Paulo, na costa da Bahia, perto da Cidade de Valença, foi torpedeado por um submarino, no dia 17 de agosto, dois dias após o naufrágio do Baependi que, ao ser atingido, levou apenas um minuto para afundar. Além desses dois navios, no intervalo entre 15 e 17 de agosto, foram torpedeados, também, os navios Araraquara, Aníbal Benévolo e Arará.

 



O Itagiba havia saído do Rio de Janeiro no dia 13 de agosto. Às 10h45min da manhã do dia 17, em pleno mar, quando nós nos preparávamos para almoçar, Dalvaro viu por acaso um submarino emergindo, mas este sumiu logo. Devido a seu telescópio, parecia um coqueiro de cabeça para baixo. Em seguida, foi disparado o torpedo. Houve gritos – “Olha, uma baleia! Um tubarão!” Era, porém, o ataque. O navio levou apenas treze minutos para afundar.

 



Foi uma catástrofe. Mais de 180 pessoas estavam a bordo do Itagiba. Muitas mulheres, crianças e civis morreram. No Baependi, todo o comando desapareceu no naufrágio. O Major Landerico de Albuquerque Lima foi uma dessas vítimas.

 



Nesse navio, torpedeado no dia 15, por volta das 19 horas, salvaram-se apenas 36 pessoas, sendo 12 militares do Exército Brasileiro, enquanto no Itagiba mais de 100 conseguiram sobreviver.

 



Felizmente, Dalvaro se salvou. Estava no tombadilho do Itagiba naquele momento. Saltou para a baleeira, mas o mastro caiu e quebrou-a. Ele e um colega, Carlos José Salomão Bacarat, nadaram em direção ao Arará, que se aproximava.

No entanto, quando estavam a uma distância de cem a duzentos metros do navio, este afundou, rapidamente, após ter sido atingido por um torpedo. Levou aproximadamente um minuto.

Lamentavelmente, a área do Farol de São Pedro-São Paulo, na ilha de Tinharé, além de ter sido o ninho da Quinta-Coluna alemã, era infestada por tubarões e seu colega foi devorado por um.

Algumas pessoas chegaram a entrar no Arará antes do torpedeamento, como o Tenente Alípio Napoleão de Andrada Serpa. Por sinal, há uma passagem em que ele demonstrou grande heroísmo. Ele tinha se cortado durante a explosão e estava sangrando quando viu o soldado Pedro Paulo de Figueiredo Moreira, a seu lado, bastante aflito. Imediatamente, o Ten Serpa entregou o seu salva-vidas a esse soldado e o encorajou a prosseguir. Pedro Paulo, que continua entre nós, deve a sua vida ao Tenente, que infelizmente morreu.

 



Dalvaro teve sorte, apareceu um iate pequeno, de madeira, o Aragipe, que os levou para Valença; era um iate de transporte de cacau que ia de Ilhéus para Salvador. Esse iate salvou aproximadamente 50 pessoas. Como um torpedo custa caro, não fazia sentido atacá-lo. Assim mesmo, procuraram metralha-lo, mas houve uma reação.

Além do Aragipe, lanchas da Cidade de Valença que haviam recebido o sinal de socorro vieram apanhar as vítimas na foz do Rio Una. Muitos pescadores também ajudaram. Mas houve muita agonia, principalmente, porque o iate Aragipe só apareceu por volta das quatro horas da tarde, cerca de duas horas após o segundo torpedeamento. Já estava quase anoitecendo, quando chegaram as lanchas. Nós fomos noite adentro porque os civis foram na nossa frente, sendo que crianças e mulheres tiveram prioridade. Durante esse tempo todo, ficamos, sobretudo, em cima das tábuas que cortamos das baleeiras encravadas nas corrediças.

Foi o que nos salvou, pois só uma baleeira pôde ser usada para transportar as pessoas. Eu fui um dos últimos a deixar o Aragipe; cheguei em terra quase à meia-noite.

Ficamos vários dias sem o fardamento, que só recebemos quando retornamos ao Rio de Janeiro. Havíamos perdido tudo, inclusive os canhões e caminhões.

 



A nossa maior revolta, porém, foi gerada pelas perdas humanas. Presenciamos o desespero de pessoas como o soldado Carberón Ortiz, que não sabia nadar. O navio afundava e ele pedia socorro, mas, de repente, ele escorregou, entrou pela chaminé e sumiu. O outro foi o soldado Rabelo, que estava agarrado a um pedaço do mastro, gritando, quando um tubarão o apanhou. Vimos ainda crianças mortas nas praias de Sergipe. Por isso, no Rio Una, perto da Ilha de Tinharé, na Bahia, nós, de mãos dadas, juramos que iríamos à guerra para vingar aquelas mortes. Felizmente, cumprimos o nosso juramento. Fomos para o 8o GMAC e, de lá, integramos voluntariamente a Bateria Comando da AD.

No retorno de Pernambuco para Bahia, quase fomos torpedeados novamente, dessa feita a bordo do Tiradentes. Deixamos a capital pernambucana e, depois de vinte e dois dias, chegamos, finalmente, ao Rio de Janeiro, após uma série de paradas em vários lugares.

 



Como os outros febianos, tenho orgulho de haver combatido e vencido os alemães na Campanha da Itália. Essa vitória é também uma homenagem aqueles que morreram, inocentemente, nos mercantes brasileiros no ano de 1942. Até a data de hoje, temos procurado comemorar os nossos feitos. Espero que os meus colegas da Força Expedicionária Brasileira e as novas gerações passem aos seus filhos, netos e bisnetos a idéia de que a FEB representou, com brilho e destemor, o Povo brasileiro no Teatro de Operações do Mediterrâneo. Nós, soldados do nosso querido Exército, soubemos mostrar em combate o amor imenso que temos pelo Brasil!

 


Desejo ainda comentar um gesto do meu Comandante, Capitão Francisco Saraiva Martins, que muito me emocionou. Foi o último elogio que recebi dele: “Ao desligar o terceiro-sargento Dalvaro José de Oliveira, desta Bateria, louvo pelo muito que fez pelo Exército e pelo Brasil durante o tempo em que serviu nesta unidade. Disciplinado, dedicado, trabalhador, inteligente e com grande espírito de sacrifício cumpriu com muita eficiência as missões recebidas nos campos de batalha, na Itália, mesmo as mais difíceis e perigosas. A Bateria de Comando da AD é agradecida e deseja muitas felicidades na sua nova unidade, onde vai servir”.

 



Nesse momento, fui indicado para a Medalha Cruz de Combate.

 

 

Joomlashack