O Exército Brasileiro reabre a negociação para comprar 36 obuseiros ATMOS 155 mm depois de quase dois anos de contrato parado. O sistema israelense da Elbit venceu a licitação em 2024 e ficou travado por causa da guerra em Gaza.
Agora, com aval do presidente Lula, a saída passa pela Avibras Aeroco, a fabricante brasileira entra no desenho industrial para montar o obuseiro em Jacareí no interior de São Paulo.
Negociação volta à mesa após dois anos
A compra do obuseiro ATMOS 155 mm nasceu em 2023, quando o Exército abriu licitação internacional para renovar a artilharia de campanha. Em abril de 2024, a Elbit Systems venceu o certame com folga técnica sobre concorrentes de peso.
Só que a guerra entre Israel e Hamas em Gaza, travou toda negociação. Em fevereiro de 2025 chegou a circular que Lula só liberaria o negócio em caso de um acordo de paz, condição que nunca se confirmou. Mesmo assim, o contrato volta à mesa agora sem paz declarada no Oriente Médio.
O ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, obteve aval do presidente para avançar em um arranjo que reduz o desgaste político da compra. A saída passa por transformar uma aquisição sensível em projeto com conteúdo industrial brasileiro.
Alcance chega a 50 km com munição RAP
O obuseiro ATMOS 155 mm/52 calibres é montado sobre chassi Tatra T-815 6×6, o mesmo veículo já usado pela Avibras no sistema Astros. A ficha técnica prevê alcance superior a 40 km com munição convencional. Com projétil assistido por foguete, a chamada munição RAP, o tiro passa dos 50 km.
O sistema aceita munições padrão OTAN de calibre 155 mm, incluindo o projétil M107 de alto explosivo que o Exército já usa nos canhões atuais. Essa compatibilidade evita trocar todo o estoque de munição da Força na transição.
A flexibilidade também aparece no chassi. A Elbit oferece o ATMOS em versões 6×6 ou 8×8, conforme a demanda do cliente. Para o Brasil, prevalece a configuração sobre rodas, que reduz custo de manutenção frente aos modelos lagarteados.

Elbit Systems venceu a licitação de 2024 com o obuseiro ATMOS 155 mm | Foto: Divulgação
ATMOS superou rivais de quatro países
O ATMOS não venceu sozinho, na licitação de 2024, o obuseiro israelense superou o Zuzana 2 da tcheca Excalibur International, o Caesar da francesa KNDS, e o SH-15 da chinesa Norinco. Segundo o próprio Exército, o sistema atendeu a todos os requisitos absolutos estabelecidos no edital.
| Posição | Sistema – empresa/país |
|---|---|
| 1º | ATMOS – Elbit Systems (Israel) |
| 2º | Zuzana 2 – Excalibur (Rep. Tcheca) |
| 3º | Caesar – KNDS (França) |
| 4º | SH-15 – Norinco (China) |
Em dezembro de 2024, o TCU rejeitou pedido da KNDS para reavaliar o processo, mantendo o resultado técnico intacto. A vitória, porém, não bastou para destravar a assinatura.
Avibras é peça-chave para nacionalizar
A Avibras Aeroco vive retomada depois de período de recuperação judicial. Em 1º de julho de 2026, o comandante do Exército, general Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva, visitou o complexo industrial da empresa em Jacareí, acompanhado do comandante militar do Sudeste, general Ricardo Piai Carmona e de outros generais ligados a projetos estratégicos.
Oficialmente, a agenda tratou da capacidade industrial da Avibras. O timing chamou atenção, a empresa tem experiência com o chassi Tatra usado no Astros, o que facilitaria a montagem e integração do ATMOS em solo brasileiro.

General Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva visitou a Avibras em 1º de julho de 2026 | Foto: Divulgação
Especialistas alertam que falar em produto 100% nacional seria exagero, o obuseiro segue de origem israelense com nacionalização concentrada em montagem, suporte e fornecedores locais.
A negociação também pode incluir o sistema de foguetes PULS da Elbit, ampliando a cooperação industrial entre AEL Sistemas, Elbit e Avibras para além dos obuseiros.
- Lote-amostra: 2 unidades para avaliação técnica e operacional
- Demais 34 obuseiros: entregas em lotes anuais até 2034
- Valor estimado do contrato: R$ 800 milhões
A artilharia divisionária do Exército usa hoje peças projetadas há cerca de 70 anos. Trocar canhões rebocados por obuseiros autopropulsados como o ATMOS muda a lógica de combate, menos tempo parado depois do disparo, mais mobilidade para escapar de contrabateria.
